“Como um imenso corpo de mulher”

Em De um discurso que não fosse semblante Lacan volta a se referir ao efeito de feminização  produzido pela carta do conto de Poe. Nesse Seminário ele articula esse efeito feminizante ao “mito escrito” de Totem e tabu, um mito  “que foi feito exatamente para nos apontar que é impensável dizer A mulher”[1].

Em Totem e tabu, o  impossível d´A mulher é assinalado pela via do  Pai Primitivo, supostamente aquele que teria acesso a “todas as mulheres”. No entanto, em A carta roubada o impossível de “todas as mulheres” se manifesta  através da circulação da famosa carta/letra (lettre) e o gozo que dela se extrai se situa para além de qualquer universalização da lei simbólica. Para Lacan, o que permite a demonstração, no conto de Poe, de que A mulher não existe é justamente a letra “como significante de que não há Outro, S(Ⱥ)”[2] .

Sabemos que Lacan não irá deter-se na equivalência entre letra e significante. À medida do percurso de seu ensino a letra será concebida para além do significante, muitas vezes em oposição ao significante. Uma vez apagado o sentido, sobressai a sua dimensão de dejeto (“a letter, a litter”), ou de objeto, abarcando aí a sua materialidade gráfica.  A letra, por sua estrutura de litoral, ao mesmo tempo em que transporta um gozo que conflui com o sentido, incluindo a significação fálica, também propaga, em sua matéria, um gozo para além do sentido, para além do gozo fálico, gozo esse que se aloja em seus receptáculos.

EFEITOS FEMINIZANTES DA CARTA/LETRA 

Em seus Seminários Lacan destaca os efeitos feminizantes da carta/letra sobre os personagens que a detém. Sente-se um “odor di femina” exalado por aqueles que estão de posse da carta: languidez, desvirilização, displicência, inação, mas também raiva e incontinência.

Mas Lacan não irá deter-se sobre esses sinais, alguns tão distantes do que hoje consideramos associados ao feminino.  Outros efeitos de feminização se fazem presentes: o da carta como “signo de mulher” à medida que procura fazer valer seu ser por fora de uma lei que visa encerrá-la numa moldura significante (como, por exemplo, no fetiche). Há também a relação da carta com o olhar. Trata-se de protegê-la do olhar do Outro, mas ao mesmo tempo deixando a descoberto o que não deveria ser visto.

No entanto, podemos ressaltar que o efeito feminizante da carta se manifesta na relação que os personagens estabelecem com a sua materialidade ou, se quisermos, com o corpo da carta:  trata-se de virá-lo do avesso, de refazer as dobras, imprimir uma nova caligrafia, alterar o lacre, enfim, dissimulá-la “numa espécie de presença-ausência”[3].

O CORPO DA CARTA/LETRA 

Tomando como referência um jogo de caça-palavras sobre mapas, Lacan faz uma nova referência à carta roubada: “qual um imenso corpo de mulher, [ela] se esparrama no espaço do gabinete do Ministro”. Quando ali entra Dupin, só lhe resta “desnudar esse maiúsculo corpo.”[4]

Por essa perspectiva, pelo menos duas vertentes se abrem em relação ao que habita esse corpo. Uma primeira diz respeito à estrutura de véu que a carta/letra parece mobilizar. Como interposição ao olhar, o véu, ao mesmo tempo em que esconde, indica um para além, incluindo o vazio como um dos elementos do que ali poderá estar sendo velado. Outra vertente é considerar a carta/letra a partir da estrutura de luva. Sabemos o modo como Lacan se interessou pelo modelo da luva para dizer sobre a relação sexual entre Joyce e Nora. Fundamentalmente, Nora lhe cerrava como uma luva. É o que se depreende das correspondências de Joyce endereçadas a sua esposa: sempre esperando ser tomado em seus braços, implorando para ter o seu corpo envolvido pelo dela. Como nos assinala Jean-Louis Gault, o sinthoma Nora é essencial para que Joyce possa ter uma ideia de si como corpo[5].

Para Lacan o que ocorre entre Joyce e Nora é da ordem de uma relação sexual, “drôle”, mas mesmo assim.  A referência ao corpo da mulher em sua estrutura de luva virada ao avesso se inscreve nisso que Jacques-Alain Miller nos propõe como uma “geometria da relação sexual” a ser pensada para além do  “espaço concêntrico do imaginário”[6]. Trata-se de conceber a relação sexual quando esta ocorre em relação “a uma alteridade interna à estrutura do falasser”[7]. Por exemplo, quando, para um homem, uma mulher é um sinthoma. Ou para uma mulher ser “sintoma de um outro corpo”[8].

ESCRITAS INCLUSIVAS – O AVESSO DA LETRA

Numa diretiva interna, a Nasa estabelece que seus voos não serão mais caracterizados como “manned” ou “unmanned” mas como “tripulados” (“crewed”)  e “não tripulados” (“uncrewed”). Estas prerrogativas de uma comunicação sem estereótipos também se apresentam ao nível da “escrita inclusiva”. Trata-se de operar ao nível da letra, para tornar a escrita mais justa, mais representativa, não segregativa. Dois aspectos parecem não ser levados em consideração. Primeiro, que a escrita não se reduz a mera expressão da fala. Segundo, que a escrita não é da mesma natureza dos semblantes.

A ser considerada como outro modo do falasser de se haver com o real, a escrita não é expressão dos semblantes, mas justamente o que se deposita a partir de sua ruptura. Em outras palavras: a manifestação do real não está nos semblantes, mas no “que se evoca de gozo ao se romper um semblante” com a dissolução de tudo o que nele é “forma, fenômeno, meteoro”[9].

Haveria espaço para se pensar uma escrita que incluísse a ruptura com os semblantes como uma espécie de alteridade interna? E que permitisse ler, na contingência do que se escreve, aquilo que não cessa de não se escrever?


[1] Lacan, J. Seminário livro 18: De um discurso que não fosse semblante, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2009,  p.99.

[2] Ibidem, p.102.

[3] Lacan J. O Seminário livro 2: o Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanalise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1985, p.250.

[4] Lacan J.  Seminário sobre A carta roubada. In: Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 40.

[5] Arpin, Dalila et Gault, Jean-Loui. L´épouse de Joyce. In: L’Hebdo-Blog 154, 9 Décembre 2018.  https://www.hebdo-blog.fr/category/hebdo-blog-154/

[6] Miller, J-A. L´envers de Lacan. In: Revue La Cause freudienne, n.67, Paris: Navarin Editeur, octobre 2007, p.139.

[7] Idem.

[8] Lacan, J. “Joyce, o Sintoma”. In; Outros escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., p. 565.

[9] Lacan, J.. Lituraterra. In: Outros escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p.22.