{"id":9700,"date":"2021-09-14T15:46:15","date_gmt":"2021-09-14T13:46:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.grandesassisesamp2022.com\/?p=9700"},"modified":"2021-09-17T21:30:10","modified_gmt":"2021-09-17T19:30:10","slug":"se-a-mulher-nao-existe-os-homens-sao-mulheres-como-as-outras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.grandesassisesamp2022.com\/pt-br\/se-a-mulher-nao-existe-os-homens-sao-mulheres-como-as-outras\/","title":{"rendered":"Se a mulher n\u00e3o existe, os homens s\u00e3o mulheres como as outras\u00a0?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para muitos franceses, a primavera de 2022 evoca as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es presidenciais e a amea\u00e7a que algumas correntes pol\u00edticas fazem pairar, pretendendo fazer reinar uma homogeneidade dos gozos. Al\u00e9m da Fran\u00e7a e da primavera que ela se prepara, essa amea\u00e7a paira, hoje, sobre o conjunto do mundo democr\u00e1tico. E sustento que o t\u00edtulo do nosso pr\u00f3ximo congresso da AMP delineia uma brecha no horizonte das primaveras que est\u00e3o por vir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A mulher n\u00e3o existe<\/em>. O que esse enunciado de Lacan nos diz precisamente? E em que exatamente ele perfura o horizonte? \u00c9 o que veremos, aqui, interrogando cada um dos termos dessa proposi\u00e7\u00e3o m\u00ednima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Notemos primeiro que, assim como a <em>teologia negativa<\/em> apreende Deus a partir do que ele n\u00e3o \u00e9, assim tamb\u00e9m parece <em>a priori<\/em> mais f\u00e1cil dizer o que o feminino <em>n\u00e3o \u00e9<\/em> do que <em>o que ele \u00e9<\/em>. O feminino decorre, assim, de um gozo <em>fora do<\/em> <em>sentido<\/em>, <em>ilimitado<\/em>, <em>indiz\u00edvel<\/em>. Situa-se <em>em excesso <\/em>em rela\u00e7\u00e3o ao gozo f\u00e1lico e <em>faz furo<\/em> nos semblantes. O feminino n\u00e3o \u00e9, portanto, nem sensato, nem limitado, nem diz\u00edvel, n\u00e3o procede do gozo f\u00e1lico e n\u00e3o \u00e9 um semblante. Mas o feminino tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel \u00e0 feminilidade &#8211; no\u00e7\u00e3o abstrata da qual toda mulher \u00e9 suposta participar, a menos que <em>ainda n\u00e3o seja<\/em> ou <em>j\u00e1 n\u00e3o seja<\/em>, uma mulher. Se a feminilidade designa assim a ess\u00eancia da mulher, isto \u00e9, aquilo de que participam as mulheres existentes, tendo existido, ou apenas suscet\u00edveis de existir, o feminino designa muito mais o real de um gozo que <em>existe<\/em>, sem poder ser posto na conta de uma ess\u00eancia qualquer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:18px\"><strong>\u023a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a><em>A mulher n\u00e3o existe<\/em>, assim nos diz Lacan. Ali onde cada um tem sua vers\u00e3o mais ou menos privada do que \u00e9 uma mulher, Lacan exibe uma rasura que recobre o <em>A<\/em> de \u00ab&nbsp;a mulher&nbsp;\u00bb. Essa rasura indica que o artigo definido <em>a<\/em> n\u00e3o conv\u00e9m diante da palavra <em>mulher<\/em>, porque, como indica seu estatuto de <em>artigo definido<\/em>, <em>A<\/em> \u00e9 suposto introduzir uma <em>defini\u00e7\u00e3o<\/em>, ela mesma tribut\u00e1ria de uma <em>ess\u00eancia<\/em> da mulher. Ora, justamente, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o entre, por um lado, a diversidade das <em>mulheres<\/em> existentes e, por outro, uma defini\u00e7\u00e3o da qual elas seriam suscet\u00edveis, nem todas juntas, nem mesmo uma a uma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:18px\"><strong>Mulher<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o se poderia distinguir uma mulher de um homem, ou de uma menininha, nem, <em>a fortiori<\/em>, de uma pantera, de uma flor ou de uma pedra (ainda que esta fosse preciosa). Isso quer dizer que o que \u00e9 revelado de uma mulher no discurso anal\u00edtico &#8211; j\u00e1 que \u00e9 disso que Lacan d\u00e1 conta -, o que dela se descobre de mais essencial, precisamente, n\u00e3o \u00e9 suscet\u00edvel de qualquer essencializa\u00e7\u00e3o e, portanto, de nenhuma coletiviza\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o h\u00e1 defini\u00e7\u00e3o de mulher mais do que de ess\u00eancia da mulher, \u00e9 porque as mulheres, neste ponto em que o feminino as habita, n\u00e3o coincidem com elas mesmas. O que ent\u00e3o elas teriam em comum com as outras mulheres? Talvez apenas isto&nbsp;: elas s\u00e3o todas <em>irremediavelmente<\/em> singulares, e isso, a ponto de remeter qualquer tentativa de determinar sua ess\u00eancia \u00e0 sua vaidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma ess\u00eancia de mulher, pois n\u00e3o h\u00e1 mulher que seja toda mulher, n\u00e3o h\u00e1 mulher que coincida completamente consigo mesma, cada uma das mulheres existentes testemunham mais sobre sua diferen\u00e7a do que sobre qualquer participa\u00e7\u00e3o na <em>Feminilidade<\/em>. Por conseguinte, o que chamamos de \u00ab&nbsp;feminino&nbsp;\u00bb \u00e9 precisamente essa n\u00e3o coincid\u00eancia entre um sujeito e o gozo bruto e real que o habita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dito isso, v\u00e1rias quest\u00f5es surgem de imediato. Detenhamo-nos em duas. Esta proposi\u00e7\u00e3o, <em>A mulher n\u00e3o existe<\/em>, diz respeito \u00e0s mulheres, \u00e9 claro. <em>Quid<\/em> quanto aos homens? A quest\u00e3o se coloca tanto mais que, se Lacan descobre o gozo feminino ou <em>Outro<\/em> com as mulheres, Jacques-Alain Miller nos indica que ele logo far\u00e1 dele o regime do gozo como tal. <em>A mulher n\u00e3o existe<\/em> tamb\u00e9m pode ser declinado nestes termos: <em>o homem n\u00e3o existe<\/em>, pelo menos quanto ao fato de os homens serem tamb\u00e9m concernidos por este hiato entre o que eles s\u00e3o <em>e <\/em>o gozo fora do sentido com o qual eles t\u00eam de se haver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo assim, levar a s\u00e9rio a proposi\u00e7\u00e3o \u00ab&nbsp;A mulher n\u00e3o existe&nbsp;\u00bb e tom\u00e1-la em sua acep\u00e7\u00e3o original &#8211; com este <em>A<\/em> <em>mulher<\/em> no lugar de sujeito gramatical &#8211; mant\u00e9m uma refer\u00eancia crucial \u00e0 cl\u00ednica e ao papel que as mulheres \u2013 n\u00e3o todas, ali\u00e1s &#8211; desempenharam na teoria lacaniana do gozo. Essa teoria manifestamente deve muito \u00e0s mulheres, pois \u00e9 com elas que o gozo Outro aparece inicialmente para Lacan. N\u00e3o \u00e9 pelo fato de elas testemunharem isso mais e melhor do que os outros? Se assim n\u00e3o fosse, por que Lacan o teria qualificado primeiro como \u00ab&nbsp;feminino&nbsp;\u00bb, mesmo que transitoriamente? De fato, as mulheres ocupam um lugar eminente na hist\u00f3ria da psican\u00e1lise: enquanto Freud descobre o inconsciente ouvindo as mulheres, Lacan descobre o gozo Outro ouvindo, ele tamb\u00e9m, as mulheres. Isso nos d\u00e1 um ind\u00edcio do quanto um e outro valorizavam sua fala numa \u00e9poca em que isso n\u00e3o era t\u00e3o comum. Mas ter\u00e1 sido um acaso o fato de ter sido com as mulheres que o primeiro descobre o inconsciente, quando \u00e9 ainda com elas que o segundo descobre o gozo Outro? Nada \u00e9 menos certo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Opor-nos-\u00e3o, talvez, que, desde os anos de 1970, o mundo mudou. Ali\u00e1s, isso \u00e9 um fato. Mas o que as mulheres testemunharam h\u00e1 50 anos, homens e mulheres o testemunham da mesma forma nos dias de hoje? Com o tempo, descobrir-se-ia que os homens, afinal, acabariam sendo mulheres como as outras? Isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 certo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as muta\u00e7\u00f5es mais sens\u00edveis de nossa \u00e9poca, mencionemos essas identidades sexuadas que s\u00e3o, talvez, tanto mais afirmadas por umas (e por outros) por serem tamb\u00e9m mais l\u00e1beis do que nunca. O que nos ensinam aquelas e aqueles que se dizem <em>mulheres<\/em>, seja qual for a ess\u00eancia que sup\u00f5em \u00e0 dita <em>mulher<\/em>? Os <em>cis<\/em>, mas tamb\u00e9m o <em>trans<\/em>, assim como aqueles que n\u00e3o se experimentam nem homem nem mulher, ou alternativamente um e outro, ou os dois ao mesmo tempo, n\u00e3o nos indicam que <em>a mulher n\u00e3o existindo<\/em>, nada a impede de encontrar um correlato no ser ?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:18px\"><strong>N\u00e3o existe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Disso decorre a segunda das duas quest\u00f5es que se imp\u00f5em: n\u00e3o \u00e9 precisamente porque <em>a mulher n\u00e3o existe <\/em>que ela aspira a ser? Na verdade, cada um tem sua ideia do que <em>\u00e9 <\/em>a mulher no registo do ser: dona de casa para uns, mulher de poder para outros, feminina ou viril, loira ou morena, casada, m\u00e3e, solteira, independente ou submissa, inteligente ou tola, culta ou ignorante, bela ou rebelde, portadora deste tra\u00e7o discreto ou imediatamente reconhec\u00edvel &#8211; a lista poderia ser infinita -, tal seria o que constitui a feminilidade de uma mulher. Cada um pode, portanto, definir a mulher como bem lhe aprouver no registro do ser e, a partir da\u00ed, pretender encarn\u00e1-la, aspirar a encarn\u00e1-la ou, ao contr\u00e1rio, recusar-se a faz\u00ea-lo. Mas, na realidade, essa ess\u00eancia n\u00e3o remete a nada de existente. O que existe, antes, \u00e9 o gozo feminino que faz de cada mulher <em>n\u00e3o toda<\/em>, <em>Outra para sempre em seu gozo<\/em> e, nesse sentido, irredut\u00edvel a este ou \u00e0quele tra\u00e7o espec\u00edfico de sua pessoa e de sua suposta identidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para apreender a profundidade da proposi\u00e7\u00e3o que constitui o tema do nosso pr\u00f3ximo congresso, somos sem d\u00favida convidados a distinguir os registos da exist\u00eancia e do ser &#8211; distin\u00e7\u00e3o que o curso de Jacques-Alain Miller de 2010-2011 nos permite precisamente operar. A partir da perspectiva que nos \u00e9 dada por ele, a proposi\u00e7\u00e3o <em>A mulher n\u00e3o existe <\/em>pode ser lida destacando cada um dos seus cinco termos, permitindo-nos tra\u00e7ar os contornos de uma inexist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A mulher n\u00e3o existe<\/em>, esta afirma\u00e7\u00e3o se op\u00f5e \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias de todos os tipos. Ela se op\u00f5e a esses conjuntos normatizados que hoje proliferam e que se afirmam para melhor rivalizar e se opor. Ela se op\u00f5e tamb\u00e9m a estes conjuntos ideol\u00f3gicos hist\u00f3ricos, que pretendem impor-se ao maior n\u00famero poss\u00edvel para caminharem num s\u00f3 passo, rumo \u00e0 unifica\u00e7\u00e3o dos modos de gozar na escala das na\u00e7\u00f5es. Ali onde conjuntos r\u00edgidos pretendem reinar em maior ou menor escala, seu \u00fanico destino \u00e9 o de se opor mais ou menos radicalmente ao que deles se exclui. A promo\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea dos <em>todos<\/em> nos imp\u00f5e, assim, considerarmos o <em>feminino<\/em> ou <em>n\u00e3o-todo<\/em> como mais subversivo do que nunca e, nesse sentido, necess\u00e1rio. <em>A mulher n\u00e3o existe<\/em>, essa proposi\u00e7\u00e3o \u00e9 afim com o objeto abordado por ela: ela faz furo e, em especial, nos discursos totalit\u00e1rios. Assim fazendo, ela nos acende uma luz que se estende at\u00e9 o horizonte da primavera de 2022 e para al\u00e9m dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tradu\u00e7\u00e3o : Vera Avellar Ribeiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para muitos franceses, a primavera de 2022 evoca as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es presidenciais e a amea\u00e7a que algumas correntes pol\u00edticas fazem pairar, pretendendo fazer reinar uma homogeneidade dos gozos. Al\u00e9m da Fran\u00e7a e da primavera que ela se prepara, essa amea\u00e7a paira, hoje, sobre o conjunto do mundo democr\u00e1tico. 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