{"id":8915,"date":"2021-09-16T21:28:51","date_gmt":"2021-09-16T19:28:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.grandesassisesamp2022.com\/la-femme-nexiste-pas-2\/"},"modified":"2021-09-17T21:38:42","modified_gmt":"2021-09-17T19:38:42","slug":"la-femme-nexiste-pas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.grandesassisesamp2022.com\/pt-br\/la-femme-nexiste-pas-2\/","title":{"rendered":"\u00ab A mulher n\u00e3o existe \u00bb"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Brevemente, em um ano, teremos a abertura da Grande Conversa\u00e7\u00e3o virtual internacional da AMP. Ela interv\u00e9m em um momento em que, de toda parte, um vento soprou. Surgem&nbsp; vozes de mulheres quebrando um sil\u00eancio que vem de longe. Elas clamam legitimamente por seu desejo de igualdade e de liberdade, denunciam as injusti\u00e7as sexistas e as viol\u00eancias feitas \u00e0s mulheres. A psican\u00e1lise faz sua parte nesse movimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Este texto lan\u00e7ou, em 30 de abril de 2021, a Grande Conversa\u00e7\u00e3o virtual internacional da AMP.<br>Descubra-o na \u00edntegra, abaixo.<br>E ou\u00e7a Christiane Alberti, diretora dessa Grande Conversa\u00e7\u00e3o, apresent\u00e1-la.<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"nv-iframe-embed\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Les Grandes Assises Virtuelles Internationales de l&#039;Association Mondiale de Psychanalyse\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/84y7HZTWIxM?start=17&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong><strong>L\u00f3gica freudiana<\/strong> (\u2013\u03c6) <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mulheres est\u00e3o na origem da psican\u00e1lise. Ao escut\u00e1-las, Freud fez ouvir uma fala in\u00e9dita sobre sua vida amorosa e sexual, numa \u00e9poca em que elas n\u00e3o eram vistas sen\u00e3o como genitoras. Ele, por\u00e9m, porta a marca de sua \u00e9poca e \u00ab&nbsp;a tradi\u00e7\u00e3o de um longo passado&nbsp;\u00bb. Dir\u00edamos, hoje, que a concep\u00e7\u00e3o freudiana da feminilidade \u00e9 faloc\u00eantrica. Freud, de fato, orientou-se pelo falo como s\u00edmbolo da castra\u00e7\u00e3o para pensar a feminilidade. No inconsciente, o ser feminino estaria irremediavelmente marcado pela falta, afetado pelo sinal menos. Esse \u00e9 um ponto de vista enraizado na pot\u00eancia da impress\u00e3o (lembran\u00e7a infantil) da compara\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria dos corpos macho e f\u00eamea, que faz acreditar em uma aus\u00eancia do lado mulher e na castra\u00e7\u00e3o da m\u00e3e. Desse <em>ter<\/em>, cavilhado no corpo, resultaria o fato de o homem se pensar como completo, ao passo que o outro sexo seria marcado por uma irremedi\u00e1vel incompletude, com sua parcela de decep\u00e7\u00e3o, reivindica\u00e7\u00e3o, avidez e rivalidade eterna entre homens e mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi o que chocou muitas feministas, ao encontrarem sob a pluma de Freud os <em>topos<\/em> mais insuport\u00e1veis que fazem da mulher um ser privado, dotado de um sentimento de inferioridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa l\u00f3gica, que consiste em conceber o \u00c9dipo para a menina a partir de sua vers\u00e3o masculina, desemboca em um tortuoso caminho rumo \u00e0 feminilidade. O pr\u00f3prio Freud tomou conhecimento dos limites dessa abordagem, tanto para as mulheres quanto para os homens, uma vez que trope\u00e7ou no enigma da feminilidade que n\u00e3o se deixa resolver pelo complexo de castra\u00e7\u00e3o. Da\u00ed as duras palavras de Lacan: \u00ab&nbsp;Para aquilatar a verdadeira aud\u00e1cia [do] passo [de Freud], basta considerarmos sua recompensa, que n\u00e3o se fez esperar: o fracasso quanto ao heter\u00f3clito do complexo de castra\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn1\"><sup>[i]<\/sup><\/a>\u00bb. A famosa <em>recusa<\/em> da feminilidade n\u00e3o deveria ser lida de forma diferente? Essa ser\u00e1 a via de Lacan.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Oculta\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio feminino<br><em>\u00ab&nbsp;N\u00e3o aguentamos mais o pai \u00bb.<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lacan primeiramente formalizou o \u00c9dipo freudiano pela redu\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica do mito, com o Nome-do-Pai e a met\u00e1fora paterna. Por meio dessa opera\u00e7\u00e3o de simboliza\u00e7\u00e3o, o Nome-do-Pai substitui o desconhecido (x) do desejo da m\u00e3e e lhe d\u00e1 um sentido. O sujeito \u00e9 assim conduzido a uma rela\u00e7\u00e3o normalizada com o desejo, submetendo-se \u00e0 Lei simb\u00f3lica. O efeito da met\u00e1fora \u00e9 engajar os sujeitos a pensar, gozar, reproduzir-se &#8230; dentro das normas dos ideais classicamente admitidos por seu sexo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00e9poca do estruturalismo, L\u00e9vi-Strauss teorizava que as mulheres eram engajadas como objetos de troca entre as linhagens fundamentalmente androc\u00eantricas. Lacan se afasta dessa concep\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o deixa de revelar que h\u00e1 nela um \u00ab&nbsp;inaceit\u00e1vel&nbsp;\u00bb da posi\u00e7\u00e3o da mulher, que decorre de sua \u00ab&nbsp;posi\u00e7\u00e3o de objeto<a href=\"#_edn2\">[ii]<\/a>&nbsp;&nbsp;\u00bb, embora ela seja, por outro lado, inteiramente submetida \u00e0 ordem simb\u00f3lica assim como o homem. Ele v\u00ea nisso \u00ab&nbsp;o car\u00e1ter [&#8230;] conflitual [\u2026] sem sa\u00edda, de sua posi\u00e7\u00e3o &#8211; a ordem simb\u00f3lica, literalmente, a submete, a transcende<a href=\"#_edn3\"><sup>[iii]<\/sup><\/a>&nbsp;\u00bb. Nesse regime, que ele n\u00e3o hesita em qualificar de proudhoniano do \u00abtodos os homens<a href=\"#_edn4\">[iv]<\/a>\u00bb&nbsp;, a tentativa de designar-lhe um lugar (esposa, m\u00e3e, filha, etc.) est\u00e1 fadada ao fracasso e nunca deixa de suscitar a revolta. Uma parte do feminino n\u00e3o consegue encontrar o seu lugar no mundo, ela \u00e9 propriamente insitu\u00e1vel, e isso n\u00e3o \u00e9 de ontem!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lacan levar\u00e1 em conta essa parte desde muito cedo, opondo-se a uma psican\u00e1lise que seja garante da \u00ab&nbsp;paz em casa&nbsp;\u00bb, que reconduziria a mulher \u00e0 m\u00e3e e o homem \u00e0 crian\u00e7a. Como melhor dizer que a supremacia do pai no fundamento de nossa cultura tem um avesso que Lacan formulou como a \u00ab oculta\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio feminino sob o ideal masculino<a href=\"#_edn5\"><sup>[v]<\/sup><\/a>&nbsp;\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Semblantes<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa formaliza\u00e7\u00e3o o levou, em um segundo tempo, a reduzir <em>o<\/em> pai n\u00e3o a um nome, mas a uma fun\u00e7\u00e3o que torna poss\u00edvel uma pluralidade de suportes, <em>os<\/em> Nomes-do-Pai. Lacan havia, de fato diagnosticado, desde os anos 1930, o decl\u00ednio do pai todo-poderoso. N\u00e3o existe <em>O<\/em> pai, mas um enxame de significantes (significantes-mestres) suscet\u00edveis de nomear os modos de gozar de uma \u00e9poca. Essa pluraliza\u00e7\u00e3o d\u00e1 conta das muta\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas e, em particular, da grande diversidade da vida sexual: cada um inventa sua maneira de gozar e de amar, reivindicando um nome para cen\u00e1rios que destronam o \u00c9dipo como solu\u00e7\u00e3o \u00fanica do desejo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda essa arquitetura simb\u00f3lica edipiana, constru\u00edda sobre imagens e significantes, nada mais \u00e9 do que uma fic\u00e7\u00e3o, em que se revela o car\u00e1ter de <em>semblante<\/em>, cujo valor, o uso, foram apresentados por Lacan. O falo que o pai entrega como ideal, emblema da pot\u00eancia simb\u00f3lica, \u00e9 tamb\u00e9m apenas um semblante com o qual se vestem os homens assim como as mulheres, ao sabor de uma viriliza\u00e7\u00e3o ou feminiliza\u00e7\u00e3o do parecer (pareser (<em>par-\u00eatre<\/em>)) para tratar o sexual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lacan havia, portanto, antecipado a era do g\u00eanero fluido (<em>gender fluid<\/em>) que carregava o bin\u00e1rio homem \/ mulher. Os homens, as mulheres, os g\u00eaneros em todo g\u00eanero s\u00e3o, antes de mais nada, seres da linguagem. A paternidade e, muito em breve, a maternidade, o casamento s\u00e3o apenas fic\u00e7\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para acreditar at\u00e9 o fim em todas essas \u00ab&nbsp;momices&nbsp;<a href=\"#_edn6\">[vi]<\/a>\u00bb significantes, faz ouvir um Lacan voltairiano, ironizando sobre o fact\u00edcio da linguagem, ao mesmo tempo em que demonstra sua utilidade como semblante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todavia, h\u00e1 mais. A tomada da palavra pelas mulheres em an\u00e1lise o conduzir\u00e1 a extrair disso todas as consequ\u00eancias sobre a estrutura\u00e7\u00e3o e as formas do desejo. Ele \u00e9 levado a considerar uma disson\u00e2ncia entre, por um lado, as posi\u00e7\u00f5es sexuais definidas no Outro, que se prestam a todos os deslizamentos significantes e, por outro, o <em>mais-de-gozar <\/em>particular a cada um, o qual decorre de uma grande in\u00e9rcia. Em outras palavras, uma tens\u00e3o \u00e9 exercida entre o significante-mestre S1, na perspectiva dos discursos, coletivizando, idealizando, e <em>a<\/em>, o objeto de gozo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois, Lacan ir\u00e1 mais al\u00e9m dessa tens\u00e3o entre S1 e <em>a<\/em>, derivados do falo, para engajar-se na via de um gozo suplementar que resiste ao sentido sexual.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Sexua\u00e7\u00e3o<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lacan introduz o termo <em>sexua\u00e7\u00e3o<\/em> para indicar o elemento subjetivo da escolha, tribut\u00e1rio do que chamou de <em>as f\u00f3rmulas de sexua\u00e7\u00e3o<\/em>. Estas \u00faltimas fornecem balizas quanto \u00e0 maneira poss\u00edvel de alojar-se no sexo, para al\u00e9m dos estere\u00f3tipos da designa\u00e7\u00e3o homem \/ mulher. \u00c9 assim que, em seu Semin\u00e1rio <em>Mais, ainda<\/em>, ele enuncia essa escolha nos termos de \u00ab&nbsp;a parte dita homem<a href=\"#_edn7\"><sup>[vii]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;\u00bb, \u00ab&nbsp;a parte dita mulher&nbsp;\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00ab&nbsp;parte dita homem&nbsp;\u00bb permite a um sujeito, <em>seja ele quem for<\/em>,alojar-se sob o regime da castra\u00e7\u00e3o, no sentido do limite instaurado pela fun\u00e7\u00e3o da linguagem. O regime da falta fica, portanto, situado bem aqui, do lado macho! A experi\u00eancia do corpo que lhe corresponde \u00e9 a de um gozo limitado ao \u00f3rg\u00e3o f\u00e1lico, localizado, sentido como fora do corpo. Essa parte delimita, assim, o mundo da sexualidade onde se ama e se deseja o outro ajudando-se com a fantasia: do corpo do Outro, s\u00f3 se pode gozar mentalmente ($ \u25ca a).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00ab&nbsp;parte dita mulher&nbsp;\u00bb n\u00e3o corresponde a nenhum universal, mas apenas a uma rela\u00e7\u00e3o contingente com o falo. Ela \u00e9 n\u00e3o toda apreendida na dimens\u00e3o f\u00e1lica, pois, na raiz desse <em>n\u00e3o-todo<\/em>, Lacan postula um gozo propriamente feminino: um gozo do corpo, indiz\u00edvel, sem forma, nem raz\u00e3o. Se o dizemos \u00ab&nbsp;impropriamente&nbsp;\u00bb feminino, \u00e9 no sentido em que a sexualidade feminina \u00e9 quem d\u00e1 seu melhor vislumbre: em termos imagin\u00e1rios, o <em>continente negro <\/em>freudiano ou o<em> sentimento oce\u00e2nico<\/em>; em termos l\u00f3gicos, o infinito ou o n\u00e3o-todo. \u00c9 de fato a imagem de um gozo \u00ab&nbsp;envolto em sua pr\u00f3pria contiguidade&nbsp;<a href=\"#_edn8\"><sup>[viii]<\/sup><\/a>&nbsp;\u00bb que, desde \u00ab&nbsp;Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina&nbsp;\u00bb, indicava a rela\u00e7\u00e3o com o infinito. Seus efeitos de ilimita\u00e7\u00e3o s\u00e3o encontrados notadamente na m\u00edstica ou nas formas de autoabandono que escapam ao enquadre fornecido pela fantasia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa parte dita mulher \u00e9 incomensur\u00e1vel com os ideais, uma vez que ela n\u00e3o se inscreve na ordem dos valores, pois decorre da unicidade. \u00c9 um modo de gozar que faz de cada mulher uma exce\u00e7\u00e3o e que, como tal, n\u00e3o pode ser coletivizado. \u00c9 por essa raz\u00e3o que nenhum nome pode constituir o conjunto de \u00ab&nbsp;todas as mulheres&nbsp;\u00bb. Essa falta de nome, Lacan a escreve S (\u023a). Por estar fora da linguagem, esse gozo n\u00e3o d\u00e1 nenhuma possibilidade de acoplagem a uma identifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o nos reconhecemos nele, a ponto de Lacan poder dizer que ele induz mais ao sentimento de ser Outra para si-mesma. A essa falta no Outro responde a exig\u00eancia da fala de amor, como \u00fanica via de supl\u00eancia poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas estruturas significantes do corpo possibilitam declinar as formas diferenciadas do amor e do desejo, fetichista ou erotoman\u00edaco, conforme privilegiem a via do objeto ou do amor como condi\u00e7\u00e3o de gozo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O passo decisivo realizado por Lacan foi ter postulado que, se as mulheres s\u00e3o sem uma verdadeira media\u00e7\u00e3o, expostas a esse gozo suplementar, nem por isso elas t\u00eam seu monop\u00f3lio. Ele vale tamb\u00e9m para os homens. O que Lacan nomeou de <em>princ\u00edpio<\/em> <em>feminino<\/em> pode, portanto, ser generalizado aos homens e se esclarece como o princ\u00edpio de um gozo que se sustenta mais al\u00e9m do sentido f\u00e1lico: ele d\u00e1 ao gozo seu estatuto mais profundo.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Aspira\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea \u00e0 feminilidade <\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao declarar \u00ab&nbsp;A mulher n\u00e3o existe&nbsp;<a href=\"#_edn9\">[ix]<\/a>&nbsp;\u00bb, Lacan antecipava uma quest\u00e3o, talvez a quest\u00e3o maior do mundo contempor\u00e2neo: existem <em>as <\/em>mulheres, sim, e como! Elas est\u00e3o por toda parte. Os homens custam a acreditar e as mulheres tamb\u00e9m. As resist\u00eancias mais fortes, nas cores do del\u00edrio e da raiva, as dos homens assim como as das mulheres, consistem em querer remeter essa aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 feminilidade \u00e0 ordem androc\u00eantica. Jacques-Alain Miller v\u00ea nessa aspira\u00e7\u00e3o um dos fen\u00f4menos mais profundos de nossa civiliza\u00e7\u00e3o: \u00ab&nbsp;As grandes fraturas entre a ordem antiga e a ordem nova \u00e0s quais assistimos, s\u00e3o decifradas, pelo menos parcialmente, como a ordem viril recuando diante do protesto feminino&nbsp;<a href=\"#_edn10\"><sup>[x]<\/sup><\/a>&nbsp;\u00bb. O feminino, cuja import\u00e2ncia crescente \u00e9 assinalada por J.-A Miller, n\u00e3o \u00e9 a ordem de um novo mestre, pois, n\u00f3s o vimos, como tal, ele escapa a toda mestria, a todo saber.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao querer \u00ab&nbsp;p\u00f4r o falo de lado&nbsp;\u00bb, Lacan n\u00e3o teria precedido, em certo sentido, \u00e0s neofeministas de hoje que gostariam de se libertar do sentido sexual, tal como ele \u00e9 comumente admitido no Outro? Para al\u00e9m das diferentes transforma\u00e7\u00f5es que o neofeminismo conheceu desde os anos de 1970, oscilando do feminismo pol\u00edtico (dito de domina\u00e7\u00e3o) ao feminismo dos corpos (\u00ab&nbsp;pr\u00f3 sexo&nbsp;\u00bb), o feminino sempre insistiu. Ele aparece, hoje, como uma quest\u00e3o de fundo que ultrapassa as teorias do g\u00eanero. Ao querer \u00ab&nbsp;desfazer a atribui\u00e7\u00e3o de g\u00eanero&nbsp;\u00bb, estas \u00faltimas negaram o significante <em>mulher<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No \u00e2mago desse movimento, as tentativas recentes que buscam reformar a l\u00edngua confrontam-se com o funcionamento da fala e da linguagem. N\u00e3o seria esse um esfor\u00e7o em v\u00e3o, uma vez que \u00e9 imposs\u00edvel falar fora do g\u00eanero e fora do corpo, com o risco de ser reconduzido ao sil\u00eancio? A via da letra, fora do sentido, preconizada por Lacan, aparece muito mais f\u00e9rtil, ela que abre uma nova perspectiva sobre a feminiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estafando-se na ca\u00e7a aos semblantes, sempre suspeitos de serem prescritos pelo Outro, uma outra tend\u00eancia do neofeminismo contempor\u00e2neo est\u00e1 dando o que falar. Em busca de uma maior consist\u00eancia ontol\u00f3gica da feminilidade, ela situa a luta pol\u00edtica no lugar mesmo do corpo feminino, numa tentativa de controlar o gozo. Ela milita, em particular, a favor de um lesbianismo pol\u00edtico, a fim de melhor libertar-se do poder masculino. A falsa <em>sororidade<\/em> de corpos que disso resulta n\u00e3o \u00e9 uma sa\u00edda fict\u00edcia baseada, em \u00faltima inst\u00e2ncia, no imagin\u00e1rio dos corpos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lacan abriu uma outra via que n\u00e3o a do discurso. Radicalmente subversiva da tradi\u00e7\u00e3o, ela encontrou sua fonte na fala das analisandas e dos analisandos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A defini\u00e7\u00e3o de feminilidade n\u00e3o nos deixa tranquilos. O ser que a fala nos outorga \u00e9 pouco consistente, inapreens\u00edvel, o que nos arrasta a uma paix\u00e3o pela palavra certa que diria, por fim, o ser feminino aut\u00eantico. N\u00e3o \u00e9 isso que pode impelir uma mulher a buscar na an\u00e1lise um solo menos elusivo? Ora, como diz Lacan, das mulheres, \u00ab&nbsp;tudo p[ode] (<em>p<\/em>[<em>eut<\/em>]) dizer-se dela, mesmo que provenha do sem-raz\u00e3o<a href=\"#_edn11\"><sup>[xi]<\/sup><\/a>&nbsp;\u00bb. Seguindo essa via, a an\u00e1lise conduz, mais-al\u00e9m das fic\u00e7\u00f5es as quais o Outro nos teria atribu\u00eddo, ao encontro da conting\u00eancia dos significantes que governavam nossa vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para al\u00e9m do tamponamento fantasm\u00e1tico que compensava nossa falta ontol\u00f3gica, a an\u00e1lise traz \u00e0 luz a experi\u00eancia do que Lacan nomeia de o sexo como tal, a partir da l\u00f3gica do n\u00e3o-todo. Ela se aparelha com uma rede mais fundamental do que a da fantasia, mais est\u00e1vel do que os valores de g\u00eanero, mais forte que tudo, ali onde se existe verdadeiramente e de uma maneira \u00fanica. Essa \u00e9 a via do <em>sintoma<\/em> que, nesse sentido, nos feminiza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que existam <em>as <\/em>mulheres e n\u00e3o <em>A <\/em>mulher n\u00e3o significa que sua exist\u00eancia preceda sua ess\u00eancia, mas que ela \u00ab\u00a0prescinda da ess\u00eancia da feminilidade <a href=\"#_edn12\"><sup>[xii]<\/sup><\/a>\u00bb, segundo a f\u00f3rmula de J.-A. Miller. A esse respeito, o que se pode aprender da experi\u00eancia da an\u00e1lise? O que se pode extrair do princ\u00edpio feminino dos tratamentos de hoje, sejam os das mulheres sejam os dos homens? N\u00f3s nos beneficiar\u00edamos ao dar aos matemas de Lacan referentes \u00e0s formas masculinas ou femininas de desejo, respectivamente \u03a6 (a) e \u023a (\u03c6), seu valor atual. \u00c9 o que podemos esperar das Grandes Conversa\u00e7\u00f5es Virtual Internacional da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de psican\u00e1lise, que dever\u00e1 tudo ousar, j\u00e1 que&#8230; <em>A mulher n\u00e3o existe!<\/em><\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Christiane Alberti<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Avellar Ribeiro<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><a href=\"https:\/\/www.grandesassisesamp2022.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/argument1-CA-POR-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Baixar o arquivo<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ednref1\">[i]<\/a>. Lacan J., \u00ab&nbsp;Subvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano&nbsp;\u00bb, <em>Escritos, <\/em>Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998, p. 836.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ednref2\">[ii]<\/a>. Lacan J., <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro&nbsp;2&nbsp;: <em>o eu na teoria Freud e na t\u00e9cnica da psican\u00e1lise<\/em>, texto estabelecido por J.-A. Miller, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985, p.&nbsp;329.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ednref3\">[iii]<\/a>. <em>Ibid<\/em>., p.&nbsp;329.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ednref4\">[iv]<\/a>. <em>Ibid<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ednref5\">[v]<\/a>. Lacan J., \u00ab&nbsp;Os complexos familiares na forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. Ensaio de an\u00e1lise de uma fun\u00e7\u00e3o em psicologia&nbsp;\u00bb, <em>Outros escritos<\/em>, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003, p.&nbsp;90.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ednref6\">[vi]<\/a>. Miller J.-A., <em>in<\/em> \u00ab&nbsp;Le Parlement de Montpellier&nbsp;\u00bb, jornadas UFORCA de 21 &amp; 22 de maio de 2011, in\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ednref7\">[vii]<\/a>. Lacan J., <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 20&nbsp;: <em>mais, ainda<\/em>, texto estabelecido por J.-A.&nbsp;Miller, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2008 (novo projeto), p. 86.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ednref8\">[viii]<\/a>. Lacan J., \u00ab&nbsp;Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina&nbsp;\u00bb, <em>Escritos<\/em>, <em>op.&nbsp;cit<\/em>., p.&nbsp;744.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ednref9\">[ix]<\/a>. \u00ab&nbsp;<em>A<\/em> mulher n\u00e3o ex-siste \u00bb (Lacan J., \u00ab&nbsp;Televis\u00e3o&nbsp;\u00bb, <em>Outros escritos<\/em>, <em>op.&nbsp;cit<\/em>., p.&nbsp;536).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ednref10\">[x]<\/a>. Miller J.-A., \u00ab&nbsp;Progressos em psican\u00e1lise bastante lentos&nbsp;\u00bb, <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, <\/em>n<sup>o&nbsp;<\/sup>64, dezembro de 2012, p.&nbsp;57.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ednref11\">[xi]<\/a>. Lacan J., \u00ab&nbsp;O aturdito \u00bb, <em>Outros escritos<\/em>, <em>op.&nbsp;cit<\/em>., p.&nbsp;466.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ednref12\">[xii]<\/a>. Miller J.-A., \u00ab&nbsp;Liminaire&nbsp;\u00bb, <em>Ornicar?<\/em>, n<sup>o&nbsp;<\/sup>22-23, primavera de 1981, p.&nbsp;1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brevemente, em um ano, teremos a abertura da Grande Conversa\u00e7\u00e3o virtual internacional da AMP. Ela interv\u00e9m em um momento em que, de toda parte, um vento soprou. Surgem&nbsp; vozes de mulheres quebrando um sil\u00eancio que vem de longe. 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