{"id":7443,"date":"2021-04-24T00:24:47","date_gmt":"2021-04-23T22:24:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.grandesassisesamp2022.com\/mas-e-apenas-um-sonho\/"},"modified":"2021-06-01T00:05:42","modified_gmt":"2021-05-31T22:05:42","slug":"mas-e-apenas-um-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.grandesassisesamp2022.com\/pt-br\/mas-e-apenas-um-sonho\/","title":{"rendered":"Mas, \u00e9 apenas um sonho?"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><i>N\u00f3s temos o prazer de difundir o texto da interven\u00e7\u00e3o prevista para a abertura do XII\u00b0 Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, que deveria acontecer em Buenos Aires em 2020 com o tema \u201cO sonho. Sua interpreta\u00e7\u00e3o e seu uso no tratamento lacaniano\u201d. Em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 2022 e ao pr\u00f3ximo Congresso em Paris, leiamo-lo hoje! \u2013 A Reda\u00e7\u00e3o. <\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">A <i>Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/i> \u00e9 um livro que h\u00e1 um pouco mais de cento e vinte anos. \u00c9 tamb\u00e9m o nome de um campo aberto por Freud, de uma empreitada \u00e0 qual muitos se apressaram em participar. No in\u00edcio, este livro foi o \u00fanico manual de psican\u00e1lise aberto \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es de cada um. A um dado momento, Freud fixou o estado atual do texto e desejou n\u00e3o mais remanej\u00e1-lo. Certas problem\u00e1ticas que encontramos posteriormente, notadamente a prop\u00f3sito do al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer, n\u00e3o est\u00e3o mais presentes. Tamb\u00e9m, um cap\u00edtulo redigido por Otto Rank que tivera sido inclu\u00eddo no volume por um momento, foi suprimido. Em uma carta \u00e0 Samuel Jank\u00e9l\u00e9vitch de 1911, Freud considera que a obra n\u00e3o \u00e9 traduz\u00edvel em franc\u00eas<a href=\"#sdfootnote1sym\" name=\"sdfootnote1anc\"><sup>1<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>Sonhador e int\u00e9rprete<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">Freud se questionava se os sonhos poderiam ser comunicados. Em 1930, ele escrevia em uma nota de A <i>Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/i>: \u201cem quase nenhum exemplo apresentei a interpreta\u00e7\u00e3o <i>completa<\/i> de meus pr\u00f3prios sonhos, conforme me \u00e9 conhecida\u201d<a href=\"#sdfootnote2sym\" name=\"sdfootnote2anc\"><sup>2<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p align=\"justify\">Devemos entender que o que Freud temia era que o desejo do sonhador, do sujeito Freud, fosse apagado. Ele p\u00f4de mesmo propor aos tradutores de tomarem seus pr\u00f3prios sonhos no lugar dos apresentados por ele, Freud<a href=\"#sdfootnote3sym\" name=\"sdfootnote3anc\"><sup>3<\/sup><\/a>, o que fez Abraham A. Brill nos Estados Unidos, por exemplo. Sem d\u00favidas, isto permite esclarecer por que Freud, em suas <i>Novas confer\u00eancias de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise, <\/i>diz que \u201co sonho n\u00e3o \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o social, um meio de entendimento. N\u00e3o compreendemos o que ele quer dizer, e ele pr\u00f3prio n\u00e3o sabe o que \u00e9\u201d<a href=\"#sdfootnote4sym\" name=\"sdfootnote4anc\"><sup>4<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p align=\"justify\">Silvia Baudini e Fabian Naparstek, na apresenta\u00e7\u00e3o do XII\u00b0 Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, sublinham que \u201cOs sonhos n\u00e3o s\u00e3o transparentes!\u201d<a href=\"#sdfootnote5sym\" name=\"sdfootnote5anc\"><sup>5<\/sup><\/a>. Se Freud faz esse coment\u00e1rio \u00e9 que, a um certo momento, tornou-se um jogo nos sal\u00f5es de falar dos sonhos, de os interpretar. Um novo la\u00e7o social havia sido encontrado! Os passos de Freud tomam um outro caminho.<\/p>\n<p align=\"justify\">O m\u00e9todo de interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos de Freud passa pela associa\u00e7\u00e3o livre, que permite o acesso aos \u201cpensamentos latentes do sonho\u201d. O m\u00e9todo da associa\u00e7\u00e3o sup\u00f5e \u201cde nos preocupar o m\u00ednimo poss\u00edvel [&#8230;] do <i>sonho manifesto<\/i>\u201d<a href=\"#sdfootnote6sym\" name=\"sdfootnote6anc\"><sup>6<\/sup><\/a>. A interpreta\u00e7\u00e3o vinda das associa\u00e7\u00f5es \u00e9, de acordo com Freud, apenas uma premissa \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o do analista, que formula \u201co que o paciente n\u00e3o fez que aflorar\u201d. As formula\u00e7\u00f5es assim comunicadas ao paciente sup\u00f5em um trabalho de constru\u00e7\u00e3o do analista. Freud n\u00e3o teme intervir: n\u00f3s \u201cinterferimos, completamos as insinua\u00e7\u00f5es, tiramos inevit\u00e1veis conclus\u00f5es, explicitamos aquilo que o paciente apenas ro\u00e7ou com as associa\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#sdfootnote7sym\" name=\"sdfootnote7anc\"><sup>7<\/sup><\/a>. De fato, para ele, o que parece se acrescentar ao sonho pela via das associa\u00e7\u00f5es ou por constru\u00e7\u00e3o, pela leitura dos s\u00edmbolos em particular, faz parte do sonho. O sonho interpreta, mas tamb\u00e9m tudo o que vir\u00e1 coment\u00e1-lo, modul\u00e1-lo, associar-se a ele, interpret\u00e1-lo, faz parte \u2013 isso pertence ao sonho! Vemos l\u00e1 que Freud n\u00e3o se situa enquanto psic\u00f3logo. Freud, com a <i>Traumdeutung<\/i>, \u00e9 o sonhador e o interpreta inseparavelmente.<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>O<\/i><i> <\/i><i>buraco que desperta<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">Se o sonho n\u00e3o visa ser comunicado, \u00e9 porque ele serve a outra coisa. Freud nota que se o sonho serve ao eu (moi) e ao desejo de dormir, ele satisfaz sobretudo um desejo pulsional sob a forma de uma realiza\u00e7\u00e3o de um desejo alucinado<a href=\"#sdfootnote8sym\" name=\"sdfootnote8anc\"><sup>8<\/sup><\/a>. Esta satisfa\u00e7\u00e3o do desejo \u00e9 vivida como presente. E, para Freud, este desejo pode se formular em uma frase. Assim, o sonho oscila entre imagens, figura\u00e7\u00e3o, semblante, mas tamb\u00e9m enunciado, linguagem. Sobretudo, ele busca uma satisfa\u00e7\u00e3o bem real.<\/p>\n<p align=\"justify\">Lacan quis, primeiramente, reduzir esta satisfa\u00e7\u00e3o a um efeito de gram\u00e1tica, \u00e0 forma verbal do realizado, para, mais tarde, reconhecer no sonho a presen\u00e7a do <i>mais-de-gozar<\/i>. E \u00e9 precisamente este real pulsional, este gozo mesmo, que corre o risco de provocar o despertar do sonhador. Lacan, em 1975, nos indica que o que Freud designava por esse real pulsional \u00e9 antes de tudo um buraco na linguagem, no significante, no corporal, aquele da origem do sujeito<a href=\"#sdfootnote9sym\" name=\"sdfootnote9anc\"><sup>9<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>N\u00e3o querer se despertar<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">Como, ent\u00e3o, evitar o despertar? Em se dizendo: \u00ab&nbsp;mas \u00e9 apenas um sonho!\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Isto ressalva a quest\u00e3o do sonho dentro do sonho. Para Freud, qualificar o sonho de sonho, em seu pr\u00f3prio conte\u00fado, n\u00e3o o desvaloriza, mas procura a separ\u00e1-lo da realidade: \u201cquando um evento espec\u00edfico \u00e9 inserido num sonho pelo pr\u00f3prio trabalho do sonho, isso implica a mais firme confirma\u00e7\u00e3o da realidade do evento \u2013 sua afirma\u00e7\u00e3o mais forte. O trabalho do sonho se serve do sonhar como forma de rep\u00fadio, confirmando assim a descoberta de que os sonhos s\u00e3o realiza\u00e7\u00f5es de desejos\u201d<a href=\"#sdfootnote10sym\" name=\"sdfootnote10anc\"><sup>10<\/sup><\/a>. O sonho dentro do sonho \u00e9, ent\u00e3o, tra\u00e7o de uma recusa, que marca que ele \u00e9 uma realiza\u00e7\u00e3o de desejo, e, no fundo, index do real pulsional. <i>\u00c9 apenas um sonho<\/i> marca para n\u00f3s o tra\u00e7o do real do gozo, na medida em que o sujeito o recusa.<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00f3s encontramos este tema um pouco mais longe no texto: <i>\u00e9 apenas um sonho<\/i> visa adormecer uma inst\u00e2ncia de censura que gostaria de interromper o sonho: \u201cA meu ver, esse ju\u00edzo cr\u00edtico desdenhoso, \u2018\u00e9 apenas um sonho\u2019, aparece no sonho quando a censura, que nunca est\u00e1 inteiramente adormecida, sente que foi apanhada desprevenida por um sonho que j\u00e1 se deixou passar.\u201d<a href=\"#sdfootnote11sym\" name=\"sdfootnote11anc\"><sup>11<\/sup><\/a> O sonho \u00e9 desvalorizado para que seja permitido que ele continue sem produzir o despertar.<\/p>\n<p align=\"justify\">Lacan parte deste ponto quando se trata de comentar a nota (de Nacht em<i> A psican\u00e1lise hoje<\/i>) \u201cum sonho, afinal, \u00e9 apenas um sonho\u201d, interrogando \u201cn\u00e3o significa nada que Freud nele tenha reconhecido o desejo?\u201d<a href=\"#sdfootnote12sym\" name=\"sdfootnote12anc\"><sup>12<\/sup><\/a>. Este coment\u00e1rio equivale, de fato, a n\u00e3o querer se despertar, n\u00e3o querer se despertar diante o encontro do desejo de Freud t\u00e3o presente no que ele nos transmite sobre o sonho. Pois se Freud reconheceu no sonho um desejo, \u00e9 o desejo que se manifesta, e o da psican\u00e1lise em particular. Freud observava que poucas pessoas podiam decifrar os sonhos como ele.<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>O trabalho do sonho<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">Mas <i>\u00e9 apenas um sonho<\/i> \u00e9 uma observa\u00e7\u00e3o do sujeito, l\u00e1 onde ele encontra um desejo que n\u00e3o \u00e9 sujeito, antecipa Lacan nos <i>Escritos<\/i><a href=\"#sdfootnote13sym\" name=\"sdfootnote13anc\"><sup>13<\/sup><\/a>. Isto quer dizer que n\u00e3o \u00e9 o sujeito quem realiza o trabalho do sonho, mas o pr\u00f3prio sonho. Seu primeiro trabalho \u00e9 a distor\u00e7\u00e3o \u2013 tal \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o proposta por Lacan do termo <i>Entstellung<\/i> de Freud. Se os conte\u00fados s\u00e3o assim, deslocados, mas sobretudo distorcidos, \u00e9 porque nenhum significante n\u00e3o pode corresponder a um significado, h\u00e1 um deslizamento de um para o outro. H\u00e1 deslizamento porque no sonho, as articula\u00e7\u00f5es entre significante e significado s\u00e3o desfeitas. O sonho nos mostra <i>lalangue<\/i> em a\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, o sonho utiliza um aspecto da linguagem, ou seja, este deslizamento do significante para o significado. Para manifestar o qu\u00ea? Um real que escapa, e de fato, ataca as articula\u00e7\u00f5es da significa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">O que se trata verdadeiramente no sonho n\u00e3o \u00e9 represent\u00e1vel porque toca o real. L\u2019<i>Entstellung<\/i> \u00e9, para Freud, apenas o tra\u00e7o deste real a partir do qual ele orienta seu desejo de analista. Lacan tamb\u00e9m traduziu <i>Entstellung<\/i> por <i>ex-sist\u00eancia<\/i>. O que existe no sonho? Inicialmente s\u00e3o as puls\u00f5es. E se as puls\u00f5es ex-sistem, de acordo com Lacan, \u00e9 porque elas s\u00e3o, por excel\u00eancia, tamb\u00e9m o que \u00e9 deslocado. Elas n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1 onde deveriam estar. Lacan articulou o imposs\u00edvel a escrever, e a saber \u2013 com este real pulsional: \u00ab&nbsp;\u00c9 justamente isto o que Freud aponta ao falar do umbigo do sonho [\u2026]. De tal maneira que isto designa uma analogia, totalmente an\u00e1loga ao que voc\u00ea acabou de definir aqui como o real pulsional&nbsp;\u00bb<a href=\"#sdfootnote14sym\" name=\"sdfootnote14anc\"><sup>14<\/sup><\/a>. Lacan emprega o mesmo termo para o desejo no sonho e para as puls\u00f5es: <i>Entstellung<\/i>, deslocamento e ex-sist\u00eancia. O que n\u00e3o est\u00e1 no seu lugar e s\u00f3 pode se apresentar assim, \u00e9 o sexual.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para Freud, a ess\u00eancia do sonho n\u00e3o est\u00e1 nos pensamentos latentes trazidos \u00e0 luz pela associa\u00e7\u00e3o livre. O principal \u00e9 o trabalho do sonho. Trata-se de saber qual \u00e9 o mecanismo que permite passar do sonho manifesto aos pensamentos latentes, isto \u00e9, este trabalho que sup\u00f5e o efeito da censura que est\u00e1 sempre em a\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o houvesse censura, por que ent\u00e3o falar de desejo, de repress\u00e3o, de lat\u00eancia? Se Freud se interessa sobretudo pelo trabalho do sonho, \u00e9 porque ele encontra nele a marca que atesta uma deforma\u00e7\u00e3o. A deforma\u00e7\u00e3o introduzida pela sexualidade \u00e9 o que assegura sua certeza e \u00e9 tamb\u00e9m o que ele procurar\u00e1 em seu <i>Mois\u00e9s<\/i>. Ele buscar\u00e1 os rastros de uma hist\u00f3ria alterada, de um crime, de uma substitui\u00e7\u00e3o. Para Freud, \u00e9 com efeito tamb\u00e9m o vest\u00edgio de um assassinato. De <i>Totem e Tabu<\/i> a Mois\u00e9s, passando pelo \u00c9dipo, a ex-sist\u00eancia est\u00e1 atrelada \u00e0 figura imposs\u00edvel do pai morto do gozo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os contempor\u00e2neos de Freud foram mais seduzidos pela interpreta\u00e7\u00e3o proporcionada pela associa\u00e7\u00e3o livre, pelo latente, do que pelo sexual. Adler queria a realiza\u00e7\u00e3o de desejo alimentasse a propens\u00e3o ao apaziguamento. J\u00e1 Jung, queria substituir os sonhos de Freud pelos sonhos dos pacientes na <i>Traumdeutung<\/i>. Eles sonhavam por um sonho tranquilo! Isto foi sem d\u00favida, um dos motivos que levou Freud a escrever no pref\u00e1cio da segunda edi\u00e7\u00e3o: \u201cEu compreendi que [este livro] era uma parte da minha autoan\u00e1lise, da minha rea\u00e7\u00e3o \u00e0 morte do meu pai, o acontecimento mais importante, a perda mais dolorosa da vida de um homem\u201d<a href=\"#sdfootnote15sym\" name=\"sdfootnote15anc\"><sup>15<\/sup><\/a>. Freud percorre o caminho indicado por seu desejo. Esse desejo passa pelo trabalho do sonho, como marca da repress\u00e3o da sexualidade.<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>Uma falta-a-ser sexuada<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">Lacan interv\u00e9m introduzindo um novo termo para apreender essa quest\u00e3o do desejo no sonho. Este termo \u00e9 o de demanda. Essa demanda obscura est\u00e1 no \u00e2mago do sonho, em um <i>aqu\u00e9m<\/i> do desejo, perto da puls\u00e3o. Como Lacan sublinhou mais tarde, antes de querer nos dizer algo, h\u00e1 no sonho, algo da ordem de um <i>isto quer<\/i>: \u201cquando interpretamos um sonho, o que nos guia, n\u00e3o \u00e9 certamente <i>o que \u00e9 que isso quer dizer?<\/i> nem tampouco <i>o que ele quer dizendo isto?<\/i> mas, <i>o qu\u00ea \u00e9 que, do dizer, isso quer?<\/i>\u201d<a href=\"#sdfootnote16sym\" name=\"sdfootnote16anc\"><sup>16<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p align=\"justify\">Com efeito, essa demanda obscura, quase real, quando ela \u00e9 expl\u00edcita, torna-se transitiva, e \u00e9 tamb\u00e9m o que deve ser ultrapassado para produzir um para-al\u00e9m, um vazio, que lhe ex-siste. \u00c9 o desejo que ex-siste \u00e0 demanda. \u00c9 nisso que, se o sonho tamb\u00e9m pede sua interpreta\u00e7\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o o satisfazemos verdadeiramente, para que o que se satisfaz no sonho venha \u00e0 tona, e que o inconsciente se interprete.<\/p>\n<p align=\"justify\">Lacan precisar\u00e1 de tempo para perceber que o vazio, no sonho, est\u00e1 ocupado pelo objeto causa do desejo. H\u00e1 demanda no <i>Wunsch<\/i> de Freud, mas como sublinha Lacan em 1977: \u201cO sonho difere, diferencia-se, para se diferenciar de maneira n\u00e3o manifesta, certamente, e bastante enigm\u00e1tica &#8211; basta ver o trabalho que Freud se d\u00e1 &#8211; o que deve ser chamado de uma demanda e um desejo. O sonho pede coisas, mas novamente aqui, a l\u00edngua alem\u00e3 n\u00e3o ajuda Freud, porque ele n\u00e3o encontra outra forma de design\u00e1-la sen\u00e3o cham\u00e1-la de um pedido, <i>Wunsch<\/i>, que \u00e9 basicamente algo entre a demanda e o desejo.\u201d<a href=\"#sdfootnote17sym\" name=\"sdfootnote17anc\"><sup>17<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nessa falta, nesse vazio para-al\u00e9m, para Lacan, trata-se do ser, e n\u00e3o do ter. O desejo n\u00e3o est\u00e1 no campo do ter, ele toca o ser. O que \u00e9 desejo n\u00e3o \u00e9 sujeito, mas presen\u00e7a da <i>falta-a-ser<\/i> no sonho. Apenas, \u00e9 uma falta-a-ser sexuada, de um sexuado que fala. O sonhador \u00e9 um <i>falasser<\/i>. O sexo, no sonho como em alhures, \u00e9 um <i>dizer<\/i>. Lacan \u00e9 o \u00fanico a entender que o dizer de Freud \u00e9: <i>N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual<\/i>. E ent\u00e3o, para isso e por meio disso, <i>h\u00e1 o sonho<\/i>.<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>A <\/i><i>falha<\/i><i> <\/i><i>do sonhador mascarado<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">Lacan aponta \u201cque o sonho, segundo Freud, \u00e9 essencialmente ego\u00edsta, que, em tudo o que o sonho nos apresenta, temos que reconhecer a inst\u00e2ncia do <i>Ich<\/i>, sob uma m\u00e1scara. Mas ao mesmo tempo, \u00e9 na medida em que ele n\u00e3o se articula como <i>Ich<\/i>, que ele se esconde a\u00ed, que ele se presentifica\u201d<a href=\"#sdfootnote18sym\" name=\"sdfootnote18anc\"><sup>18<\/sup><\/a>. E \u00e9 justamente por isso que esse <i>eu<\/i> [Je] ausente \u00e9 representado no sonho por uma multid\u00e3o, aquela de todos os pequenos outros que habitam o sonho e que s\u00e3o tamb\u00e9m o sonhador, mas nunca \u201ceu\u201d [Je]. O desejante \u00e9 assim condenado a se dispersar e a aparecer sob uma m\u00e1scara social.<\/p>\n<p align=\"justify\">Borges afirma: \u201cas m\u00e1scaras sempre me assustaram\u201d<a href=\"#sdfootnote19sym\" name=\"sdfootnote19anc\"><sup>19<\/sup><\/a> \u2013 ela tem isto em comum com a minha neta. Quando crian\u00e7a, temos medo do que est\u00e1 por tr\u00e1s da m\u00e1scara do Outro do adulto. Adulto, podemos, como Borges, pensar em arrancar a m\u00e1scara: \u201cTenho medo de arrancar essa m\u00e1scara porque tenho medo de ver meu verdadeiro rosto, o qual imagino horr\u00edvel. Por tr\u00e1s dela, pode haver a lepra, o mal ou algo ainda mais assustador do que qualquer coisa que eu pudesse imaginar\u201d. O despertar ser\u00e1 sempre uma tentativa de extrair o sujeito dessa multid\u00e3o sonhada e sonhante para que sonha para que o <i>eu<\/i> [Je] apare\u00e7a no despertar. Mas o Eu [Je] n\u00e3o quer saber o que est\u00e1 por tr\u00e1s da multid\u00e3o e de suas m\u00e1scaras. Trata-se de um falso despertar. Hoje somos aconselhados a permanecer mascarados!<\/p>\n<p align=\"justify\">Lacan observa que o desejo de dormir \u00e9 c\u00famplice do desejo do sonho, evitando a realidade que n\u00f3s encontramos ao despertar. Mas ele \u00e9 c\u00famplice at\u00e9 um certo ponto. Ele n\u00e3o quer que o desejante seja revelado, isto \u00e9, o pequeno <i>a<\/i>, o sujeito enquanto ele \u00e9 \u2013 n\u00e3o <i>eu<\/i> [je], mas <i>ele<\/i> [il] \u2013 um objeto <i>a<\/i>. A multid\u00e3o tamb\u00e9m serve para camuflar nosso ser de <i>a<\/i>.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 o que diz o sonho da borboleta: \u201cZhuangzi sonhou que era uma borboleta, esvoa\u00e7ante, feliz com seu destino, sem saber que era Zhuangzi. De repente, ele acordou e percebeu que era Zhuangzi. J\u00e1 n\u00e3o sabia se era Zhuangzi que acabava de sonhar que era uma borboleta ou se era uma borboleta que sonhava que era Zhuangzi. A diferen\u00e7a entre Zhuangzi e uma borboleta \u00e9 chamada de transforma\u00e7\u00e3o dos seres\u201d<a href=\"#sdfootnote20sym\" name=\"sdfootnote20anc\"><sup>20<\/sup><\/a>. Assim, no mesmo cap\u00edtulo intitulado \u201cDa Unifica\u00e7\u00e3o\u201d, Tchouang-Tseu afirma: \u201cN\u00e3o sabemos que sonhamos quando sonhamos e que interpretamos nossos sonhos enquanto sonhamos. [&#8230;] \u00c9 apenas quando acordamos que n\u00f3s perceberemos que estamos fazendo um grande sonho. O [sujeito] que pensa estar acordado pensa que pode distinguir um pr\u00edncipe de um pastor. Que pretens\u00e3o! Conf\u00facio e voc\u00ea [s\u00e3o] sonhos, e eu, que te digo que voc\u00ea \u00e9 um sonho, tamb\u00e9m sou um sonho.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">Para Lacan, Tchouang-Tseu \u00e9 de fato uma borboleta, cujas asas s\u00e3o cravejadas de ocelos, uma borboleta que \u00e9 um olhar. Mas, na verdade, o sonho de Lacan n\u00e3o seria este de \u201crealizar\u201d, de tornar palp\u00e1vel esse objeto inacess\u00edvel do sonho ao acordar, um objeto que d\u00ea um limite ao saber, aos semblantes do mundo, um objeto de sonho ou o sonho de um objeto?<\/p>\n<p align=\"justify\">O trabalho do sonho n\u00e3o se termina a\u00ed com a deforma\u00e7\u00e3o nem com o objeto. \u00c9 como se isto n\u00e3o fosse suficiente para que seus conte\u00fados fossem deformados. \u00c9 necess\u00e1ria uma elabora\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria. O sonho tem buracos. Ent\u00e3o, a elabora\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria vai tap\u00e1-los. Ela torna o sonho compreens\u00edvel, ou seja, comunic\u00e1vel e, portanto, comum. Existe assim uma fun\u00e7\u00e3o que visa construir uma fachada para o sonho, a torn\u00e1-lo socializ\u00e1vel, comunic\u00e1vel, apresent\u00e1vel e coerente. Essa fachada muitas vezes \u00e9 atribu\u00edda \u00e0 fantasia, ao sonho diurno, segundo Freud, ou ao devaneio, o qual ele coloca do lado imagin\u00e1rio<a href=\"#sdfootnote21sym\" name=\"sdfootnote21anc\"><sup>21<\/sup><\/a>. Ainda de acordo com Freud, essas fantasias s\u00e3o constru\u00eddas a partir de reminisc\u00eancias da inf\u00e2ncia, como \u201cmuitos pal\u00e1cios romanos de estilo barroco ao custo das ru\u00ednas antigas: os destro\u00e7os e as colunas de edif\u00edcios antigos serviram de material para a constru\u00e7\u00e3o de pal\u00e1cios modernos\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">O sonho tamb\u00e9m permite expor, em ocorr\u00eancia, elementos que indexam diretamente o gozo. \u00c9 o que Freud chama de <i>\u00dcberdeutlich<\/i>, geralmente traduzido como \u201cultra claro\u201d ou \u201canormalmente claro\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">O <i>\u00dcber<\/i> est\u00e1 presente em cada etapa. O sonho faz com que o irrepresent\u00e1vel seja traduzido pelo represent\u00e1vel. Por exemplo, certos elementos do sonho conseguem representar outros atrav\u00e9s da transfer\u00eancia. A transfer\u00eancia \u00e9 antes de tudo um instrumento do sonho &#8211; \u00e9 o <i>\u00dcbertragung<\/i>. Diante disto, o caso Dora \u00e9 ao mesmo tempo a an\u00e1lise de um sonho e de uma transfer\u00eancia. Al\u00e9m disso, a convic\u00e7\u00e3o do paciente deve passar por um n\u00edvel superior, o do <i>\u00dcberzeugung<\/i>. \u00c9 o que a constru\u00e7\u00e3o do analista favorece quando \u00e9 comunicada ao paciente. Esta convic\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o que fomenta o car\u00e1ter repetitivo do sonho. Para Lacan, o que desperta n\u00e3o \u00e9 a realidade, mas a realidade faltosa, perdida. E o que \u00e9 perdido \u00e9 a realidade da pr\u00f3pria causa, que escapa. Para Freud, no sonho do filho em chamas, \u00e9 o pai quem est\u00e1 ausente na realidade do filho. A falha do pai observa-se no sono de um outro, de um velho, o que faz com que a realidade falte. No sonho, procure ent\u00e3o a falha!<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>No vazio da realidade perdida<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 neste vazio da realidade perdida no sonho que vem se alojar a realidade ps\u00edquica. Lacan nos indica para n\u00e3o interpretar o pai. Mas n\u00e3o \u00e9 a\u03af, neste sonho, a falha de Freud no seu desejo ligado \u00e0 quest\u00e3o do pai? Freud, pai tamb\u00e9m dos analistas, torna-se aquele que nos fornece o pouco de realidade. Esta falta da realidade do pai escava &#8211; para Freud &#8211; um lugar. Neste lugar, pode-se alojar um desejo e uma outra realidade, a do inconsciente. Eis uma nova realidade no mundo, um novo sentido \u00e0 quest\u00e3o do realismo, da realidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">No lugar do que \u00e9 perdido vem a repeti\u00e7\u00e3o. Lacan em seu Semin\u00e1rio XI, fala do sonho da crian\u00e7a que queima como de uma homenagem \u00e0 realidade perdida: \u201ca realidade que n\u00e3o pode mais fazer-se a n\u00e3o ser se repetir indefinidamente, em um despertar indefinidamente jamais atingido\u201d<a href=\"#sdfootnote22sym\" name=\"sdfootnote22anc\"><sup>22<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>O que de n\u00f3s \u00e9 o mais real<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">Para Lacan, o sonho de Freud nos indica um despertar ao real, um real que ultrapassa a quest\u00e3o do pai. A aus\u00eancia de despertar \u00e0 realidade do inconsciente, o despertar que se tornou imposs\u00edvel, torna-se mais real que aquele que nos d\u00e1 a realidade do movimento do mundo. \u00c9 mais que um estar despertado. \u00c9 mais, para Lacan, que a realidade que o pai freudiano traz &#8211; aquela que passa pela castra\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m mais que aquilo que nos promete a \u201crealidade\u201d da ci\u00eancia. Para Lacan, a realidade no sonho \u00e9 um modo que nos d\u00e1 acesso \u2013 pela sua falta\u2013 a outra coisa, aquilo que est\u00e1 em jogo do real no inconsciente.<\/p>\n<p align=\"justify\">E notem que a repeti\u00e7\u00e3o se encarrega desta realidade nova. A repeti\u00e7\u00e3o do sonho traum\u00e1tico restitui ao sujeito a marca de uma realidade imposs\u00edvel a conceber, aquela mesmo do acontecimento traum\u00e1tico, que agora se tornou uma \u201crealidade ps\u00edquica\u201d. E \u00e9 l\u00e1 onde o despertar \u00e9 imposs\u00edvel que ele, em sua impossibilidade, nos permite em estar acordado para este algo de n\u00f3s que \u00e9 o mais real.<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>O sonho \u00e9 um equ\u00edvoco<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">O que se passa quando sonhamos? Borges, que se coloca a pergunta, evoca Shakespeare e avan\u00e7a que no sonho \u00e9 poss\u00edvel \u201cque sejamos algu\u00e9m, algu\u00e9m que \u00e9 aquilo que Shakespeare chamou <i>the thing I am<\/i>, a coisa que sou, talvez que sejamos n\u00f3s mesmos, ou a Divindade\u201d. <a href=\"#sdfootnote23sym\" name=\"sdfootnote23anc\"><sup>23<\/sup><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">Lacan nos indica, no \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio XI\u201d, que o inconsciente sonha da verdade. Poder\u00edamos pensar que ele sonha da verdade porque ele \u00e9 freudiano, porque ele transfere sobre Freud. Para Lacan, esta verdade participa da miragem, do sonho, visto que \u201capenas a mentira \u00e9 a ser alcan\u00e7ada\u201d<a href=\"#sdfootnote24sym\" name=\"sdfootnote24anc\"><sup>24<\/sup><\/a>. Aquela do sintoma, por exemplo, <i>proton pseudos<\/i> dizia Freud. O sonho n\u00e3o \u00e9 o sintoma. Lacan, em seu Semin\u00e1rio II, nos diz que eles apenas t\u00eam em comum uma gram\u00e1tica. Ele adiciona: \u201cEles s\u00e3o t\u00e3o diferentes como um poema \u00e9pico em uma obra sobre a termodin\u00e2mica\u201d.<a href=\"#sdfootnote25sym\" name=\"sdfootnote25anc\"><sup>25<\/sup><\/a> O que os diferencia \u00e9 a dura\u00e7\u00e3o, o tempo: \u201cum sintoma \u00e9 sempre inserido em um estado econ\u00f4mico global do sujeito, visto que o sonho \u00e9 um estado localizado no tempo em condi\u00e7\u00f5es extremamente particulares. O sonho \u00e9 apenas uma parte da atividade do sujeito, visto que o sintoma se estende sobre v\u00e1rios campos\u201d. De fato, o sintoma \u00e9 a perman\u00eancia de um modo de gozar, \u00e9 a escolha de um parceiro, \u00e9 o real quando ele \u00e9 imposs\u00edvel a suportar, \u00e9 aquilo que tece uma exist\u00eancia, \u00e9 uma arte. Notemos que sonho e sintoma participam da escrita \u2013 mesmo se o sonho puxa para o lado da literatura, mais poema de transfer\u00eancia e o sintoma para o lado do matema. Ao final da cura esta distin\u00e7\u00e3o se apaga um pouco. O sonho pega a vez do sintoma, ele se conforma a este. O sonho \u00e9 um instante que sonhamos eterno. E neste caso, como salienta Lacan, \u00e9 o sonho de um despertar: \u201cA aus\u00eancia de tempo \u00e9 uma coisa que sonhamos, \u00e9 aquilo que chamamos eternidade e este sonho consiste em imaginar que despertamos\u201d.<a href=\"#sdfootnote26sym\" name=\"sdfootnote26anc\"><sup>26<\/sup><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">Com Lacan, nosso sintoma \u00e9 o real. O sonho ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um sonho? O real do sonho, esse buraco que queremos tamponar com a tape\u00e7aria de nossas fantasias, pode tamb\u00e9m vir deslocar o sintoma? Freud nos indicou uma via imperial com o sonho, sem d\u00favida porque ele tamb\u00e9m \u00e9 o peda\u00e7o do real de um equ\u00edvoco. O sonho \u00e9 um equ\u00edvoco, visto que pela aus\u00eancia de um verdadeiro despertar, ele falha tamb\u00e9m. Para a realidade, ele falha. Para o despertar, ele falha. O sonho \u00e9 um peda\u00e7o de acaso que nos faz sinal, daquilo que falha e consegue nos fazer tocar um peda\u00e7o do real.<\/p>\n<p align=\"justify\">Aquilo que nos faz dizer que \u201c\u00e9 apenas um sonho\u201d tamb\u00e9m \u00e9 que gostar\u00edamos de estabelecer um destino com nossos sonhos. Por\u00e9m cada sonho, levado a s\u00e9rio, vem esburacar toda ideia deste destino. Logo, eles n\u00e3o nos encadeiam, mas nos d\u00e3o uma sa\u00edda. Dizer <i>\u00e9 apenas um sonho<\/i> \u00e9 enganar para n\u00e3o despertar. Sem d\u00favida porque o sonho \u201c\u00e9 uma obra de fic\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"#sdfootnote27sym\" name=\"sdfootnote27anc\"><sup>27<\/sup><\/a> O sonho n\u00e3o \u00e9 sem liga\u00e7\u00e3o com nossas fantasias. \u00c9 sua for\u00e7a, sua poesia e sua fraqueza face ao real. Lacan fez disto uma prova de verdade para os analistas: o teu sintoma te fez sair da miragem do verdadeiro, o teu inconsciente se p\u00f4s a sonhar do real ao inv\u00e9s do verdadeiro? Tu poderias demonstr\u00e1-lo?<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>Que despertar precisamos hoje? <\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">Mas, me diria voc\u00eas, que despertar precisamos? Nossa \u00e9poca mostra que o fato de dormir coletivamente, terminaremos com os sonhos humanos ao acabar matando o planeta. O sintoma humano \u00e9 a polui\u00e7\u00e3o: notamos a presen\u00e7a do homem pelo dejeto. N\u00e3o \u00e9 novo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Aquilo que tamb\u00e9m mata o planeta \u00e9 o pesadelo cientista &#8211; que pode seduzir- visto que ele nos faz acreditar que nos livrar\u00e1 do verdadeiro para colocar no lugar o verificado que exclui o real. O cientismo \u00e9 um discurso que nos exige em n\u00e3o levar a s\u00e9rio nossos sonhos, logo bane Freud. Este discurso n\u00e3o concebeu que h\u00e1 Reais: h\u00e1 aquele da ci\u00eancia, o da arte e da literatura e o da psican\u00e1lise, ou seja, o do sinthoma. O sintoma nos mostra \u201co artif\u00edcio dos canais onde o gozo vem causar o que se l\u00ea como o mundo\u201d. <a href=\"#sdfootnote28sym\" name=\"sdfootnote28anc\"><sup>28<\/sup><\/a> A busca de Freud para fazer valer a realidade ps\u00edquica continua naquilo que se mostra hoje, nos indica Jacques-Alain Miller: \u201cO acontecimento de corpo que \u00e9 o gozo aparece como a verdadeira causa da realidade ps\u00edquica\u201d. <a href=\"#sdfootnote29sym\" name=\"sdfootnote29anc\"><sup>29<\/sup><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">Tomar a medida desse n\u00f3 sempre triplo do real talvez nos permitiria em n\u00e3o rejeitar ao mar e al\u00e9m de nossas fronteiras os sonhadores, todos os <i>dreamers<\/i>, todos aqueles que querem uma vida melhor. A psican\u00e1lise, com os sonhos, nos mostra buracos, falhas onde alojar um poss\u00edvel. Como nos aponte J-A. Miller, Lacan &#8211; partindo do ser &#8211; soube capturar o que faz buraco no sonho. Joyce tamb\u00e9m nos levava a\u03af, a sua maneira, porque <i>Finnegans Wake \u00e9<\/i> tamb\u00e9m um sonho que gira em torno do buraco, buracos que jaz em uma fivela da <i>lalangue<\/i>. As fantasias contempor\u00e2neas, cuja ci\u00eancia constitui a maior parte das tropas quando ela \u00e9 cientista, est\u00e3o l\u00e1 para tamponar os buracos. Buracos que a literatura &#8211; que necessita o sonho &#8211; e a psican\u00e1lise, que depois desta, continuam a cavar. As fantasias cientistas nos prometem o transhumanismo, que esconde mal o que continua sendo um transexualismo verdadeiramente mais pansexual que Freud, e visa assegurar um mais-de-gozar que nos cobre desde j\u00e1 a perda de gozo que seria preciso.<\/p>\n<p align=\"justify\">O trabalho do sonho \u00e9 manter o buraco aberto, manter o tra\u00e7o do <i>Ent-stellung<\/i>, ou a ex-sist\u00eancia de um <i>il y a (H\u00e1)<\/i>. \u00c9 manter nada menos que o tra\u00e7o distorcido da ex-sist\u00eancia humana, de seu ex\u00edlio de origem; uma ex-sist\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 humana sem os sonhos, sem o inconsciente.<\/p>\n<p align=\"justify\">No final do s\u00e9culo XX acreditamos sair da subordina\u00e7\u00e3o ou do assujeitamento ao pai, \u00e0 lei. Evitamos ent\u00e3o o pai, acreditando escapar do pior. Mas se n\u00e3o sonharmos mais juntos estaremos ent\u00e3o no pior que o assujeitamento, na lealdade muda ao cientismo, ao capitalismo liberal, \u00e0s \u201cdemocracias iliberais <a href=\"#sdfootnote30sym\" name=\"sdfootnote30anc\"><sup>30<\/sup><\/a>\u201d, \u00e0s burocracias sanit\u00e1rias.<\/p>\n<p align=\"justify\">A democracia \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, mas o inconsciente e seus sonhadores \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da democracia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"right\">Tradu\u00e7\u00e3o: Juliane Casarin, Luciana Castilho, Nayahra Reis<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"right\">Revis\u00e3o Patrick Almeida<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote1anc\" name=\"sdfootnote1sym\">1<\/a> Cf. carta citada por Marinelli L. &amp; Mayer A., <i>R\u00eaver avec Freud<\/i>, Aubier, 2009, p. 179-180.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote2anc\" name=\"sdfootnote2sym\">2<\/a> Freud, S, A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos, Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, A Interpreta\u00e7\u00e3o dos Sonhos (I) (1900), Vol. IV, Imago: Rio de Janeiro, p. 140, nota 2.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote3anc\" name=\"sdfootnote3sym\">3<\/a> Cf. Bernays, E., \u201cCorrespondance avec Freud\u201d, trad. S. Aumercier, <i>Le coq-h\u00e9ron<\/i>, n\u00b0 194, setembro 2008, disponivel on-line.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote4anc\" name=\"sdfootnote4sym\">4<\/a> Freud, S., \u201cNovas confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise\u201d, Em Obras Completas, O mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o, novas confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise e outros textos (1930-1936), Vol. 18, Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza, Companhia das Letras: S\u00e3o Paulo, 2010, p. 94.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote5anc\" name=\"sdfootnote5sym\">5<\/a>&nbsp;Baudini S. &amp; Naparstek F., \u201cLe r\u00eave. Son interpr\u00e9tation et son usage dans la cure lacanienne\u201d, apresenta\u00e7\u00e3o do XII\u00b0 Congresso de l\u2019AMP, dispon\u00edvel no site do congresso https:\/\/congresoamp2020.com<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote6anc\" name=\"sdfootnote6sym\">6<\/a>&nbsp;Freud, S., \u201cNovas confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise\u201d, op. cit., p. 96.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote7anc\" name=\"sdfootnote7sym\">7<\/a> <i>&nbsp;Ibid<\/i>., p. 98.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote8anc\" name=\"sdfootnote8sym\">8<\/a> &nbsp;Cf. <i>ibid<\/i>., p. 104.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote9anc\" name=\"sdfootnote9sym\">9<\/a>&nbsp;Cf. Lacan, J., \u201cL\u2019ombilic du r\u00eave est un trou. Jacques Lacan r\u00e9pond \u00e0 une question de Marcel Ritter\u201d, <i>Em La cause du d\u00e9sir<\/i>, n\u00b0 102, junho de 2019, p. 35-36.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote10anc\" name=\"sdfootnote10sym\">10<\/a> &nbsp;Freud, S., <i>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos, op. cit<\/i>., p. 363.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote11anc\" name=\"sdfootnote11sym\">11<\/a> <i>&nbsp;Ibid<\/i>., p. 521-522.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote12anc\" name=\"sdfootnote12sym\">12<\/a>&nbsp;Lacan J., \u00ab La direction de la cure et les principes de son pouvoir \u00bb, <i>\u00c9crits<\/i>, Paris, Seuil, coll. Champ Freudien, 1966, p. 620.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote13anc\" name=\"sdfootnote13sym\">13<\/a>&nbsp;Cf. <i>ibid<\/i>., p. 629.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote14anc\" name=\"sdfootnote14sym\">14<\/a>&nbsp;Lacan J., \u00ab L\u2019ombilic du r\u00eave est un trou\u2026 \u00bb, <i>op. cit<\/i>., p. 37.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote15anc\" name=\"sdfootnote15sym\">15<\/a>&nbsp;Freud S., L\u2019Interpr\u00e9tation des r\u00eaves<i>, op. cit<\/i>., p. 4.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote16anc\" name=\"sdfootnote16sym\">16<\/a>&nbsp;Lacan J., <i>Le S\u00e9minaire<\/i>, livre XVI<i>, D\u2019un Autre \u00e0 l\u2019autre<\/i>, texte \u00e9tabli par J.-A. Miller, Paris, Seuil, coll. Champ Freudien, 2006, p. 198.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote17anc\" name=\"sdfootnote17sym\">17<\/a>&nbsp;Lacan J., \u00ab Ouverture de la Section clinique \u00bb, <i>Ornicar ?<\/i>, n\u00b0 9, avril 1977, p. 10.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote18anc\" name=\"sdfootnote18sym\">18<\/a>&nbsp;Lacan J., Le S\u00e9minaire, livre XIV, \u00ab La logique du fantasme \u00bb, s\u00e9ance du 18 janvier 1967, in\u00e9dit.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote19anc\" name=\"sdfootnote19sym\">19<\/a>&nbsp;Borges J. L., <i>Conf\u00e9rences<\/i>, Paris, Gallimard, coll. Folio essais, 1985, p. 43 &amp; 44.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote20anc\" name=\"sdfootnote20sym\">20<\/a>&nbsp;Tchouang-Tseu, <i>Le R\u00eave du papillon<\/i>, Paris, Albin Michel, 1994, p. 34 &amp; 33.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote21anc\" name=\"sdfootnote21sym\">21<\/a>&nbsp;Cf. Freud S., L\u2019Interpr\u00e9tation des r\u00eaves, op. cit., p. 419.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote22anc\" name=\"sdfootnote22sym\">22<\/a> Lacan J., \u00ab La direction de la cure et les principes de son pouvoir \u00bb, <i>\u00c9crits<\/i>, Paris, Seuil, coll. Champ Freudien, 1966, p. 620.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote23anc\" name=\"sdfootnote23sym\">23<\/a>&nbsp;Borges, J., <i>Conf\u00e9rences<\/i>, op.cit.pag.38.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote24anc\" name=\"sdfootnote24sym\">24<\/a>&nbsp;Lacan J., \u00ab Pr\u00e9face \u00e0 l\u2019\u00e9dition anglaise du S\u00e9minaire XI \u00bb, <i>Autres \u00e9crits<\/i>, Paris, Seuil, coll. Champ Freudien, 2001, p. 572.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote25anc\" name=\"sdfootnote25sym\">25<\/a>&nbsp;Lacan J., <i>Le S\u00e9minaire<\/i>, livre II, <i>Le moi dans la th\u00e9orie de Freud et dans la technique de la psychanalyse<\/i>, Paris, Seuil, coll. Champ Freudien, 1978, p. 150.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote26anc\" name=\"sdfootnote26sym\">26<\/a> Lacan J., \u00ab Une pratique de bavardage \u00bb, texte \u00e9tabli par J.-A. Miller, <i>Ornicar ?<\/i>, n\u00b0 19, janvier 1979, p. 5.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote27anc\" name=\"sdfootnote27sym\">27<\/a> Borges J. L., <i>Conf\u00e9rences, op. cit.<\/i>, p.36.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote28anc\" name=\"sdfootnote28sym\">28<\/a>&nbsp;Lacan J., \u00ab Postface au S\u00e9minaire XI \u00bb, <i>Autres \u00e9crits<\/i>, op. cit., p. 507.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote29anc\" name=\"sdfootnote29sym\">29<\/a>&nbsp;Miller J.-A., \u00ab L\u2019\u00eatre, c\u2019est le d\u00e9sir \u00bb, disponible sur le site du XIIe congr\u00e8s de l\u2019AMP congresoamp2020.com<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"#sdfootnote30anc\" name=\"sdfootnote30sym\">30<\/a> Nota do tradutor: Na l\u00edngua francesa a letra <i>i <\/i>diante de uma palavra indica uma nega\u00e7\u00e3o. Poder-se-ia traduzir \u201cd\u00e9mocraties illib\u00e9rales\u201d por democracias n\u00e3o liberais, em termos jur\u00eddicos, mas optamos por manter a palavra no seu original.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s temos o prazer de difundir o texto da interven\u00e7\u00e3o prevista para a abertura do XII\u00b0 Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, que deveria acontecer em Buenos Aires em 2020 com o tema \u201cO sonho. Sua interpreta\u00e7\u00e3o e seu uso no tratamento lacaniano\u201d. 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